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A vida como predicado de si

Adriano Machado encara o cotidiano e com ele extrai o sumo de sua poética. Retira os véus que encobrem sua mais profunda intimidade e, nessa operação, dá a ver uma geografia compreensiva – como a desenhada por Milton Santos¹ – cujo intuito reside na integração dos espaços e territórios em seus dinamismos, não apenas na delimitação de suas fronteiras e especificação de suas localidades. Justamente por apresentar esse espaço banal, onde o acontecimento deve ser estimado nas interrelações entre os fenômenos, é que Adriano se dispõe a mostrar a crueza das feridas e as notas alegres da esperança. As fotografias aqui organizadas podem ser acessadas sob vieses diversos, porém jamais distantes da substância de quem as produziu: elas constroem uma crônica da vida como predicado de si.

Talvez uma das coisas mais difíceis seja organizar o conhecimento sensível para exibi-lo. Difícil precisamente porque se procura, com frequência e sanha, um sentido que lhe caiba e descreva em sua justeza ou um adjetivo que lhe vista de maneira confortável e eloquente. Contudo, mais árduo – mas nem por isso indelicado – é o desvelamento da sensibilidade cotidiana, aquela cuja aparição vem carregada de afetos quentes, de relações pessoais oscilantes, de memórias próprias e de outrem, ficcionais ou não, de exclamações cítricas, de olhares ora diretos, ora oblíquos, penetrantes ou evasivos, de porquês avermelhados e terrosos, de indignações rudes e doídas, de obscenidades pontiagudas, de violência político-social estridente; ou, se se preferir, da vida mesma.


Não se trata de fotografias endereçadas à busca da verdade, visto que Adriano – parafraseando Manoel de Barros² – não está preocupado em saber como as coisas se comportam mas, ao contrário, em inventar seus comportamentos. Como um neófito, ele procura aprender a ver pelo espelho e a replicação de seus reflexos no interior de seu lar, arquitetando paisagens que “exprimem as heranças que representam as sucessivas reações localizadas entre homem e natureza”³, entre seu âmago, o mundo e nós. Ao descortinar sua quinta-essência, sente-se apto para enveredar na elaboração de seus não-retratos, nos quais o anonimato é o trampolim para uma universalidade. Há, também, a delicadeza da encenação e da pose dirigida para a fotografia cuja simplicidade é potencializada pela invenção dos comportamentos dos objetos e da pessoa em cena.


Texto para a exposição ‘Contos Fotográficos’ do artista Adriano Machado, realizada no Museu de Arte da Bahia, Salvador, em 2018.


Agora, reconhecendo-se experiente e vívido, parte mundo afora. Fora de casa e já escolado pela vida em seus malefícios e benevolências, caminha em busca de outros espaços para viver. Sua paisagem, antes localizada na fronteira especular (da câmera e do espelho) e nas paredes externas não emassadas do seu quintal familiar assumem, daqui em diante, a sobreposição dos territórios particulares e suas interrelações fenomênicas ainda inimagináveis. A vida, antes um predicado dele, torna-se também um predicado de si própria: “A vida inventa! [...] A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada. [...] Viver é muito perigoso; e não é não. [...] Um sentir é o do sentente, mas outro é do sentidor”⁴. Sendo ao mesmo tempo quem sente e quem produz o sentir, Adriano Machado manifesta visualmente a contradição dessa ferida que é vida em seus Contos Fotográficos. Suas imagens ora ardem, ora cicatrizam, num perpétuo ir e vir.

¹ SANTOS, Milton. O Papel Ativo da Geografia. Um Manifesto. XII Encontro Nacional de Geógrafos. Florianópolis, julho de 2000.
² BARROS, Manoel. Tratado geral das grandezas do ínfimo. São Paulo: Leya, 2013.
³ SANTOS, Milton. A natureza do espaço: Técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Edusp.
⁴ ROSA, Guimarães. Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Círculo do Livro / Nova Fronteira, 1984.


Website do artista:
https://cargocollective.com/adrianomachado

EN

Life as a predicate of itself

Adriano Machado confronts everyday life and, from it, extracts the essence of his poetics. He removes the veils that conceal his deepest intimacy and, through this operation, reveals a comprehensive geography—such as that outlined by Milton Santos¹—whose aim lies in the integration of spaces and territories in their dynamism, rather than merely in the delimitation of borders and the specification of localities. Precisely by presenting this banal space, in which events must be understood through the interrelations among phenomena, Adriano sets out to expose the rawness of wounds and the joyful notes of hope. The photographs gathered here may be approached from multiple perspectives, yet never detached from the substance of their maker: they construct a chronicle of life as a predicate of itself.

Perhaps one of the most difficult tasks is to organize sensitive knowledge in order to display it. Difficult precisely because one often seeks—frequently and fervently—a meaning that might fit it and describe it accurately, or an adjective that could dress it in a comfortable and eloquent manner. More arduous still—though no less delicate—is the unveiling of everyday sensibility: that which emerges laden with warm affections, unstable personal relationships, memories of one’s own and of others, fictional or not; with citric exclamations; with gazes sometimes direct, sometimes oblique, penetrating or evasive; with reddish and earthy questions; with harsh and aching indignations; with sharp obscenities; with strident political and social violence—or, if one prefers, with life itself.


These are not photographs aimed at the pursuit of truth, since Adriano—paraphrasing Manoel de Barros²—is not concerned with knowing how things behave, but rather with inventing their behaviors. Like a neophyte, he seeks to learn how to see through the mirror and the replication of its reflections within his home, constructing landscapes that “express the inheritances representing successive localized reactions between humankind and nature”³—between his inner core, the world, and us. By unveiling his quintessence, he feels prepared to embark on the creation of his non-portraits, in which anonymity becomes a springboard toward universality. There is also the delicacy of staging and of the pose directed toward photography, whose simplicity is heightened by the invention of behaviors attributed to objects and to the person within the scene.


Text for the exhibition Photographic Tales by artist Adriano Machado, held at the Museum of Art of Bahia, Salvador, in 2018.


Now, recognizing himself as experienced and vivid, he sets out into the world. Away from home and already seasoned by life in its harms and benevolences, he walks in search of other spaces in which to live. His landscape—previously situated at the specular boundary (of camera and mirror) and along the unplastered outer walls of his familial backyard—now assumes the superimposition of particular territories and their still unimaginable phenomenological interrelations. Life, once a predicate of him, also becomes a predicate of itself: “Life invents! […] We begin things without knowing why, and from that moment on we lose the power of continuation because life is a collective endeavor, stirred and seasoned by everyone. […] Living is very dangerous; and it is not. […] One feeling belongs to the one who feels, but another belongs to the one who produces feeling”⁴. Being simultaneously the one who feels and the one who produces feeling, Adriano Machado visually manifests the contradiction of this wound that is life in his Photographic Tales. His images sometimes burn, sometimes heal, in a perpetual coming and going.

¹ SANTOS, Milton. The Active Role of Geography: A Manifesto. XII National Meeting of Geographers. Florianópolis, July 2000.

² BARROS, Manoel de. General Treatise on the Greatness of the Infinitesimal. São Paulo: Leya, 2013.

³ SANTOS, Milton. The Nature of Space: Technique and Time, Reason and Emotion. São Paulo: Edusp.

ROSA, João Guimarães. The Devil to Pay in the Backlands (Grande Sertão: Veredas). São Paulo: Círculo do Livro / Nova Fronteira, 1984.


Artist's Website
https://cargocollective.com/adrianomachado

 © Fábio Gatti

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