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Texto sobre o trabalho de Mateus
Morbeck, Maré de Agosto para o
livro homônimo, publicado em
2020.

Desde dentro, cru

Segundo a mitologia Yanomami, Omamë escondeu embaixo da terra tanto o ouro quanto outros minérios. Fê-lo em função da ameaça de tais substâncias à vida. Deixou de fora apenas as coisas comestíveis (Kopenawa apud Albert, 1995, p. 32). Todos esses minérios são crus, apolares e incapazes de retornarem à sua origem ou de se degradarem quando extraídos e/ou manipulados. Uma vez fora da terra para sempre dentro da Terra. Desde esse dentro não há saída, tudo é encerrado no mesmo espaço físico no qual a vida acontece. Tudo é dentro: dentro do mundo; dentro da imagem.

O que parece estar acontecendo é similar à privação da consciência de Lucrécia Neves. Ela é o que vê. Viver, para ela, “era somente um carro andando no calor, alguma coisa avançando dia a dia como o que fica maduro” (Lispector, 1998, p. 188). Nada além de todos os dias, nada além dos eventos visíveis na sua realidade mesma, uma vez que as coisas se apresentam sempre iguais. Sem tempo a postergar, tudo é repetição: os algarismos nos ponteiros do relógio marcando uma mudança inexistente, embora houvesse esperança. Nela, nessa esperança, o real acontece e o legado de Lucrécia fortalece a relevância da ação sobre o pensamento. Sabendo disso, Mateus Morbeck pode compreender que na cidade sitiada “o difícil é que a aparência era a realidade” (Lispector, 1998, p. 70). Nessa cidade, metamorfosada em outra de si, a repetição se tornou novidade; a repetição se tornou diferença; a outra da mesma. É disso que se alimentam as imagens de Mateus: a repetição do real nele próprio. É aí que a sua ação artística rasga a aparência coincidente com a realidade e o afasta da inconsciência da personagem de Clarice. As fotografias de Mateus produzem uma ficção da realidade para poder pensá-la (Rancière, 2009, p. 58), desde dentro. Por isso, “pensar seria apenas inventar” (Lispector, 1998, p. 189). E inventando formas de visibilidade do comum — a ameaça à vida, a recorrência criminal, o descaso institucional, a política de morte, a força reacionária emergente, a falência dos sistemas modernos de produção —, Mateus as faz para partilhá-las.

Há, no mundo, outro modo de partilhar o sensível senão em sua tautocronia com a realidade? Talvez não e, justamente por isso, as ficções fotográficas de Morbeck alcançam a visão de Lucrécia Neves, para quem “tocar na realidade é o que estremeceria nos dedos” (Lispector, 1998, p. 23). Um estremecimento desde dentro. Dificuldade experimentada pelo comum, mas absorvida no particular porque “o saber da experiência é um saber que não pode separar-se do indivíduo concreto em quem encarna” (Bondía, 2002, p. 27). Para ultrapassar a condição apolar do óleo, Mateus constatou que “a dificuldade era seu único instrumento” (Lispector, 1998, p. 22). Achou-a impeditiva e logo depois ela se fez acesso. Sim, “a dificuldade faz o acesso” (Nancy, 2013, p. 417) e convida a ver/viver, desde dentro. Com suas imagens, a dificuldade criou “o sentido do acesso a um sentido cada vez ausente e adiado” (Nancy, 2013, p. 416) porque inesgotável em cada pessoa — o sentido e a poesia de suas imagens estão sempre por se fazerem em nós. Idêntico ao que Bondía (2002, p. 27) percebeu sobre o saber da experiência: ele “tem a ver com a elaboração do sentido ou do sem-sentido que nos acontece, trata-se de um saber infinito”. Um saber e um fazer partilhados no sensível, capazes de definir “ao mesmo tempo o lugar e o que está em jogo na política como forma de experiência” (Rancière, 2009, p. 18).

Do litoral à terra, na Terra, as manchas de óleo foram-se aderindo sem delongas às coisas do mundo ali disponíveis, repetidamente. A brisa engrossou, as ondas endureceram e “o sol em vez de revelar as coisas ocultava-as em luz” (Lispector, 1998, p. 17). Tudo ficou escondido e visivelmente contaminado. Na ocultação das coisas, Mateus viu suas próprias aparições. Fez falar as coisas fotografadas, mesmo irreconhecíveis. Fez das manchas de óleo o argumento visual contraditório entre o fascínio e o crime. Sem tragédia. Desde dentro, cru.

Bibliografia:
ALBERT, Bruce; KOPENAWA, Davi. O ouro canibal. PISEAGRAMA: Belo Horizonte, n. 08, pp. 32–41, 2015.
LISPECTOR, Clarice. A cidade sitiada. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, 191 p.
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2009, 69 p. Trad.: Mônica Costa Netto.
BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação, [S.l.], n. 19, p. 20–28, abr. 2002. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782002000100003
. Trad.: João Wanderley Geraldi.
NANCY, Jean-Luc. Fazer, a poesia. Alea: Estudos Neolatinos, [S.l.], v. 15, n. 2, p. 414–422, dez. 2013. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/S1517-106X2013000200010
. Trad.: Maurício Mendonça Cardozo.

Projeto completo do trabalho:

 © Fábio Gatti

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