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Texto sobre a Intervenção/ocupação Coaty,
integrante do Projeto Ativa, coordenado por Lanussi
Pasquali e Joãozito, realizado no Coaty, Ladeira d
Misericórida, Salvador, 2016.

O animal, o farol, a arte

Acreditei, e ainda acredito, ser sempre necessário ter uma direção, independentemente se a escolha, por um lado ou por outro da bifurcação, é orientada pelo desejo, pelo suor, pelos amores ou pelos dissabores. Vale ressaltar minha incredulidade na causa; não escolho o caminho por causa de algo. Não se trata de consequência, mas de esperança. E, obviamente, não me refiro ao ditado popular sobre ser a esperança a última a morrer, apesar de crer nessa afirmação. A imagem da bifurcação é meramente ilustrativa, no pior e no melhor sentido dela. De fato, a vida se nos apresenta em “multifurcações”, e dentre esta pluralidade precisei concentrar-me sobre três aspectos distintos que experimentei no Projeto Ativa, realizado dentro e nas imediações da estrutura arquitetônica projetada para funcionar como restaurante: a figura do animal, o objeto farol e a arte.

Antes de prosseguir, abro um pequeno parêntesis para tratar de um aspecto essencial a esta tentativa por ordenar um pensamento, seja qual for seu desdobramento: um lugar arquitetado para produzir comida, para alimentar as pessoas, para satisfazer o corpo com vitaminas, gorduras, minerais e, é claro, excreções, para manter este corpo vivo e em movimento é, a meu ver, um espaço, já de antemão, especialmente profícuo. Vantajoso porque se trata de um lugar dedicado a produzir variedades de experiências que abasteçam não somente o corpo em sua função biológica, mas também em sua espiritualidade toda. A comida em si é apenas um dos produtos que nos alimentam em locais como estes. Somos tomados por experiências diversas ao adentrar em quaisquer restaurantes, dos modestos aos suntuosos, pois este recinto é feito de encontros que, por sua vez, servem também para nos alimentar. Porém, fico assustado com nossa tremenda capacidade em permitir o apodrecimento daquilo que nos alimenta.

Para mim, essa permissão é escolha, sempre. E, pior, abandonamos porque esquecemos e, depois, tentamos voltar atrás. Confundimos frequentemente morte e esquecimento. A Laurie Anderson disse que morremos três vezes: a primeira quando nosso coração para; a segunda quando somos cremados ou enterrados; e a terceira, quando nosso nome deixa de ser pronunciado. Portanto, só esquecemos quando não mais podemos nominar. E, apesar de tanto esforço em lembrar, relembrar, preservar, restaurar, continuamos escolhendo deixar as coisas e as pessoas apodrecerem até que não mais saibamos seus nomes. A formulação de Laurie me coloca diante de uma questão: podemos estar vivos, e já esquecidos, antes mesmo de mortos? Se a resposta fosse negativa, a pergunta não seria formulada, pode apostar! Esquecemo-nos que estamos vivos e simplesmente existimos — Oscar Wilde já nos alertou sobre este mal. Então, se viver é raro, parece que somos o retrato fidedigno de uma regra. Engraçadamente, a ideia de haver uma regra, em minha concepção, existe para duas coisas: a primeira para desfazê-la, criando a exceção; e a segunda para mostrar um caminho, ainda que este não seja seguido.

Talvez o melhor artifício a nós oferecido é a possibilidade de escolha, porque traz em si movimento contínuo gerador da mudança, tão urgente nos dias de hoje. Provavelmente por isso a esperança não morra, porque existe sempre uma escolha diferente para a situação na qual estamos. Destarte, morrer não é característica da esperança; mas matar é característica do animal: este pode, até mesmo, matar a própria esperança com um único e súbito golpe. Todos os animais matam — aceito o desafio da universalização nesse momento. Nós, animais, nos alimentamos da vida presente nos outros animais, nas flores, nos frutos, nos vegetais, nas coisas. Matamos fauna e flora constantemente. Existimos para comer e ceifar vidas. Vivemos morrendo e matando. Entretanto, o problema é como o fazemos. Extinguimos as coisas, gerando invisibilidades, memórias e necessidades. Matamos e esquecemos. Esquecemos inclusive de haver matado.

A invisibilidade vem antes do esquecimento e não da morte. As coisas se tornam invisíveis de maneira paulatina; quando o frescor originário ainda exala um perfume de novidade a celebração é garantida, mas quando escolhemos não mais cheirar, matamos, abandonamos, largamos mesmo as traças e retiramos os holofotes, enviando tudo à completa e perene escuridão. Depois vem a obrigação da memória, e corremos para lançar um facho de luz sobre aquelas sombras, tornando a coisa novamente visível; com isso emerge o apelo à preservação, à manutenção e cria-se um discurso supostamente crítico apropriado, na tentativa de arregimentar ouvintes — John Ruskin já nos advertiu sobre o modo como o fazemos, esclarecendo ser mais proveitoso dispensar os registros duvidosos e manter as pedras mesmas empilhadas. Pelo discurso, em nome de uma pseudomemória, tentamos nos apropriar da lembrança, rememorando o que já aniquilamos. Inventariamos fábulas cujas significações não mais pertencem à história, mas dizem respeito à criação das necessidades. Estas, por sua vez, derivam dos dois primeiros aspectos como uma ode contra o esquecimento ou até um louvor em favor da imortalidade do que não podemos, na grande maioria das vezes, ressuscitar. As necessidades são o subproduto do circuito vicioso através do qual escrevemos uma falsa historiografia e, mais do que isso, fortalecemos um argumento fraudulento sobre a vida que escolhemos matar, sepultar e esquecer; e também criamos novos catálogos visuais, novos retratos que endossam o texto escrito.

Como se nós soubéssemos de fato ler a palavra escrita, ainda erigimos um alfabeto visual inacessível, pois não sabemos como vê-los. Não reconhecemos a diferença entre o pensamento revelativo e o pensamento expressivo proposta por Luigi Pareyson. E como reconheceríamos se sequer conseguimos delinear o que nos é dado e, mesmo assim, elaboramos proposições que julgamos serem revelativas, mas são apenas névoas. Existimos com tentativas de vida. É já que projetamos e criamos tantas sombras e nevoeiros, precisamos de um farol para acendê-las. E essa luz é ligada para esclarecer e não inventar. Precisamos ver para nos guiar, por vezes, quando as coisas estão invisíveis — obrigadas por nossas escolhas —, iluminá-las pode ser a maneira ideal de acessá-las. Neste sentido, encontro em Evgen Bavcar um alento luminoso sobre como ver o mundo, sobre como acessa-lo, sobre como pensar as relações da visualidade. A cegueira não lhe tirou a capacidade em ver e apresentar um mundo, aliás, a cegueira — e não estou falando no sentido de celebrá-la —, o farol com o qual ele guiou-se nas armadilhas oriundas do analfabetismo que nós, videntes, ainda nos debatemos. Com ele aprendi a olhar. Com ele depreendi o verdadeiro sentido da luz, e do fazer ver.

Estar de olhos abertos é diverso de olhar. Posso estar com um objeto focado e iluminado frente aos meus olhos e ainda assim não vê-lo, por escolha. Esqueço-o. Lina Bo Bardi operou com o caráter da possibilidade ao entender a mudança intrínseca nela. Percebeu ser insuficiente apenas abrir os olhos para aquela ladeira e vislumbrar na instalação de um farol com características alimentares para o conjunto social vivente na Bahia de Todos os Santos. O projeto iluminou, no início, inúmeros pontos carentes de visitação. E seu assassinato fomos nós, no o tempo. Deixamos seu corpo parar, mas já o esquecemos antes mesmo de sepultá-lo. As disciplinas da arquitetura cumprem apenas suas regras, editam discursos, escrevem casos, contam historinhas, mas não pensam revelativamente, não agem. Se a função de um farol é indicar a direção adequada para se chegar a um porto, seguro, de que adianta iluminar quando ninguém vê? Precisamos saber olhar para esses lugares. Necessitamos estender à luz uma mão. É agora que escolhemos a arte.

Arte é indefinível — apesar das inúmeras tentativas ao longo da história da humanidade em dar-lhe um sentido. Ela brinca consigo mesma e conosco. É a possibilidade encarnada. Alimenta, das toxinas às vitaminas, a inteireza de nosso ser. Desvia-nos da falsa realidade para nos conduzir à experiência realidade de si. Ainda que não seja um verbo, é ação. Por ela, direcionamos melhor a luz do farol, elaborando um guia mais eficaz sobre os erros dos percursos. Nela, o invisível se deixa ver como revelação, e não mera expressão. Se a realidade não nos basta — como disse Ferreira Gullar —, a arte, então, nos sustenta. Ela é antes uma proposição, e não uma desculpa com pensam aqueles cujos olhos estão somente abertos.

Fomos todos, como artistas, faxineiros da casa da ronca deste farol abandonado, porque sua extinção é a nossa e sua sobrevivência nosso alimento. Do animal pegamos o instinto para lutar pelo que é nosso, do farol a luz revelativa e da arte o rejunte para colar as peças. Ativar o Coaty, como um farol na Cidade de Salvador, nos oportunizou um alimento ainda mais caro à nossa sobrevivência ao nos lembrar de nossa animalidade prima, e de como necessitamos da arte para movimentar o corpo e o espírito, deixando de simplesmente existir, para enfim, viver!

Sobre o projeto:
http://www.cultura.ba.gov.br/2016/04/11435/Ocupacao-Coaty-inicia-atividades-neste-sabado-09.html

http://agendacultural.ba.gov.br/ocupacao-coaty/

https://livrosdefotografia.org/publicacao/17276/coaty

https://www.metro1.com.br/noticias/cidade/15328-queremos-dar-vida-ao-esquecido-diz-produtora-sobre-projeto-ocupacao-coaty

http://www.culturafgm.salvador.ba.gov.br/index.php/39-programacao-fgm/64-noticia-outubro

http://sossegodaflora.blogspot.com/2016/04/ocupacao-cultural-no-centro-historico.html

 © Fábio Gatti

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