Texto reflexivo sobre os trabalhos de Lica
Moniz (BR), Jordan Martins (EUA) e Sandra
de Berduccy (BO) que participaram da
exposição coletiva Ruínas Fratelli Vitta, na
antiga fábrica da empresa, realizada na
cidade de Salvador - Ba, 2008.
Da petrificação a fluidez ou o inverso
A matéria e a vida que enchem o mundo estão igualmente em nós;
as forças que trabalham em todas as coisas, sentimo-las em nós;
seja qual for a essência íntima do que existe e do que se faz,
participamos dela. Henri Bergson
Petrificar carrega, em si, dois grandes significados, o primeiro é o da transformação, isto é, daquilo que fora transformado em pedra; mas, além disso, engendra um simbolismo acerca da imobilidade. Poderíamos, então, dizer: a imobilidade de alguma matéria dar-se-á frente à sua petrificação, à sua resistência temporal. Entretanto, é sabido e comprovado o campo de ação do tempo sobre quaisquer matérias existentes no mundo, o que traz uma fluidez não pensada à palavra petrificação, pois mesmo os tijolos de uma edificação arquitetônica sofrem e sofrerão, continuamente, a ação do tempo. Tal qual a matéria bruta inorgânica, funciona o nosso organismo corpóreo, pois desenvolve um percurso idêntico de desintegração, com o passar do tempo.
Assim, o espanto do Ser, seu embasbacamento frente às chamadas ruínas, dá-se em função da fraqueza notória da matéria corporal e de sua finitude corrente. Diferentemente dos projetos arquitetônicos, o sujeito não integra, a si próprio, a mesma duração. Isto revelado, há um choque e, imediatamente, as mentes criadoras transmutam sua duração em obra, ou seja, o artista cria ou transfigura a sua vida e história finitas em algo contável, existente, petrificado. Obviamente, uma tarefa dificultosa e perigosa, mas é a tentativa de tornar-se vivo frente à própria vida, de colocar-se como existente. Emerge, assim, do espírito, um drama contínuo de sobrevivência à materialidade finita.
É justamente o sopro da vida, o élan bergsoniano, o impulso necessário ao ato criador. A edificação ainda existir, apesar das toneladas de escombros, das paredes caídas e dinexistência de uma cobertura, possibilitou a um grupo de artistas a complexa tarefa em acampar num terreno petrificadamente fluido. A mesma matéria e essência de vida que sopram dos orifícios arruinados deste memorial soteropolitano irradiam, também, da corporeidade orgânica dos sujeitos-artistas, consolidando um lócus tangível pela obra efêmera no tempo de sua ocupação.
Participando de uma celebração temporal, três artistas, de diferentes regiões do mundo, mas num lugar comum, agiram e criaram um trabalho especialmente pensado para o espaço arruinado de uma antiga fábrica. Este fecundo espaço fabril tornou prenhes as mentes de Jordan Martins, Lica Moniz e Sandra De Berduccy, oriundos, respectivamente, dos Estados Unidos da América, Brasil e Bolívia. Estes três espíritos materializados em carne orgânica expuseram sua integridade subjetiva por meio de obras de arte. A principal aproximação entre eles é a Ruína e desta tentaram extrair ou retrabalhar os seus campos de força. A vida em ruínas deste memorial soprou de seu âmago concreto-construtivo em direção à internalidade dos sujeitos. Âmagos entrelaçados, iniciaram-se as obras. O acontecimento artístico surge no exato momento da possibilidade do encontro entre duas potências existentes e, no caso do qual tratamos, entre os escombros de pedaços de histórias e a emergência artístico-criativa de cada sujeito.
Todos trabalham na bifurcação entre o estático e o movimento, o que significa dizer, na comunhão de um ponto comum, mas gerenciados como ex-libris; ou seja, a marca pessoal e a verdade subjetiva de cada um estão alojadas e são intrínsecas às obras finalizadas. Contudo, isto não significa que o trabalho contenha, em si, um discurso potencializado, apenas reflete a reunião de características próprias a cada sujeito, elementares em seu processo criativo.
Enquanto a idéia de congelamento temporal é visível na catraia dependurada, sabe-se que este ideal é inexistente, pois, mesmo durante a parada da maré, as mudanças acontecem, são manifestadas pelos seus campos de força, expressas na natureza pulsante de cada célula
viva, em seus intercâmbios com o meio. Parada da Maré não expõe um congelamento, mas sim, o contrário, exacerba o movimento, trazendo à tona um continuum tão marcante e necessário dentro do qual é impossível sentir-se estático. É interessante a contradição do título do trabalho com o discurso per si, pois neste tênue limiar brotam férteis interpretações. Talvez, Lica Moniz não tenha percebido o terreno movediço onde adentrava, porém, tomada de muita densidade, situa dois sítios arqueológicos num mesmo espaço: o da fábrica e o da obra. Para tal, utiliza o recurso lingüístico da metalinguagem como produto plástico; circula a catraia com escombros da antiga fábrica, o que elimina, novamente, qualquer caráter estanque que possa ser atribuído ao trabalho.
Num mesmo caminho metalingüístico, Jordan Martins utiliza pedaços da materia arruinada e, com eles, constrói o chamado Spore. Esta palavra, traduzida para o português, significa esporos. Estes são pequeníssimas unidades de reprodução de células encontradas em
plantas, musgos e fungos. O mais interessante é a resistência temporal destas micro-unidades, pois permanecem inalteradas por milhões de anos. Elas se reproduzem assexuadamente, aproximando-se do discurso da obra plástica instalada no interior da fábrica, pois o conteúdo do trabalho foi produzido, de forma assexuada, com os restos encontrados no espaço fabril. Além desta licença em utilizar uma nomenclatura específica da biologia, Jordan propõe uma reflexão
sobre a reprodução da cidade e seus sistemas de sobrevivência. Longe de um discurso político, o trabalho enaltece a fragmentação da cidade e sua constante transfiguração, mostrando que, por vezes, é possível extrair, do interior das coisas, um elo entre a pulsação de vida e a de morte, num movimento para a manutenção da existencialidade.
Numa tentativa politizada de criticar a mal-feitoria à natureza efetivada pelos homens, Sandra De Berduccy propõe estabelecer uma conversação entre a apropriação inadequada dos recursos naturais e suas conseqüências. Contudo, ao meu ver, este discurso é enfraquecido pela própria obra, sendo, também, desnecessário. As linhas construídas como correntezas maciças, evocando o líquido dos mares, juntamente com um horizonte idealizado na perspectiva linear, fortalecem a idéia da sobrevivência, e, assim como nos outros dois trabalhos, completam-se num permanente transformar. As indústrias de Sandra não querem falar dos malefícios, mas sim, da capacidade inventiva do Ser diante de sua própria destruição. O escorregamento dos líquidos e a horizontalidade remetem, diretamente, aos fluídos corpóreos e à posição moribunda que, um dia, todos assumiremos no mundo. Esse é o peso da matéria: a finitude; a qual é combatida com esmero e garra pelo impulso vital das ações do espírito. Sandra, Jordan e Lica circunscrevem um caminho em direção à exaltação da vida e à exortação da efemeridade.



