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Abusar do arquivo: depois de tanta imagem

Esta exposição apresenta um recorte dos trabalhos produzidos durante um curso ofertado por mim, no Ativa Atelier Livre, em 2024, sob o mesmo nome: abusar do arquivo. Nele, propus às pessoas usarem do excesso de seus próprios arquivos fotográficos: aqueles interrompidos, porém latentes, moradores dos álbuns de fotografia antigos nas gavetas, nos baús, nos maleiros ou mesmo das cópias impressas guardadas nas pastas e nos envelopes; e aqueles sempre crescentes, dos HDs internos e externos de seus computadores ou ainda das redes de comunicação digital que dispõe de um sem-fim de imagens. Para tanto, entabulei uma discussão entremeada pelas teorias das artes e uma multiplicidade de trabalhos de artistas que, desde os anos 1960, usam de arquivos existentes (apropriação); criam os seus próprios arquivos (invenção); formulam estratégias críticas para pensar os arquivos (re-historicização); emulam novas práticas arquivísticas em campos variados da atividade artística (execução e reflexão); e desestabilizam narrativas hegemônicas (descolonização).


O disparador linguístico foi o excesso de imagens produzidos e mantidos conosco, seja física ou digitalmente, nunca usados, independentemente do motivo. Essa sobejidão me levou ao verbo abusar, criando, de um lado, um pleonasmo literal, uma vez que arquivo e abuso carregam em si a marca do poder e, de outro, uma anáfora, pois ambos os termos delimitam o abundante, a sobra, a ênfase. Ao adicionar o subtítulo depois de tanta imagem, realcei mais ainda a superabundância visual à qual estamos inscritas social, econômica, cultural e politicamente com o emprego do pronome indefinido a partir de uma marca temporal dada pelo uso do advérbio. Ou seja, tanta imagem, qualquer uma, todas elas, indefinidamente; depois de, desde então, até agora, de forma ininterrupta. Abusar do arquivo é, portanto, uma prática. Ação constante em examinar o excedente não utilizado. Um exercício de re-visão e de contravisão para as imagens deixadas de lado, esquecidas ou utilizadas a partir de um único foco discursivo (histórico, técnico, crítico e visual).


Abusar do arquivo, como forma enfática, coloca às vistas a origem e o comando numa perspectiva derridiana, ou seja, os princípios físico, histórico e ontológico (quando as coisas começam) e o nomológico (o exercício da autoridade). Encontrar o início e pensar a legalidade destes arquivos particulares pode ser vinculada à paixão pelo arquivo descrita por Derrida (2001), uma impressão para a qual não temos nenhum conceito. Estar com mal de arquivo é, por certo, experimentar uma febre de arquivo. A ideia de arquivo e as reverberações de seus gerenciamentos, usos, manutenções e apagamentos ocupou artistas, curadores e críticos de arte. Em 2004, Hal Foster notou a prevalência de um impulso arquivístico (an Archival Impulse) na produção da arte, propondo uma análise centrada nos trabalhos realizados nos anos 1990, por três artistas: Thomas Hirschhorn (CH), Sam Durant (EUA) e Tacita Dean (UK). Em 2008, Okwui Enwezor realizou a curadoria da exposição Archive Fever. Uses of the Document in Contemporary Art, no International Center of Photography, em Nova Iorque, a fim de discutir e reexaminar, por meio da produção de 24 artistas, as narrativas históricas tradicionais sobre a memória (pública e privada), o trauma, a identidade, a perda e o documento. Em 2018, Giselle Beiguelman, no Brasil, refaz, por meio de um gesto de apropriação artístico e paráfrase, o texto de Foster, denominando-o de Um impulso historiográfico com foco em três outros artistas: Bruno Moreschi (PR, vive e trabalha em SP), Bianca Turner (SP) e Jaime Lauriano (SP).


Aqui, diferentemente das proposições analíticas de Foster e Beiguelman, o corpo de artistas se torna origem e lei de suas próprias produções. Escolhe-se olhar para o arquivo individual de cada pessoa sem que, com isso, haja uma diminuição do caráter político, memorial ou até mesmo documental dos trabalhos. Com focos diversos, o tratamento dado às imagens perdidas, esquecidas, guardadas, tidas impróprias pelas regras canônicas do que é considerada uma boa fotografia ou à espera de uma oportunidade em serem revisitadas e discutidas com mais profundidade, as fotografias de Alice Kottler, Cassandra Barteló, Jeferson Effren, Nana Brasil, Nayara Rangel, Ulla von Czékus, Vânia Viana e Zeza Maria, nesta exposição, lidam com a perda, a memória, o afeto, a família, o documento, a história, a repetição e o tempo, por exemplo.

Birman, J. Arquivo e Mal de Arquivo: uma leitura de Derrida sobre Freud. Natureza Humana, São Paulo, v. 10, n. 1, p. 105–128, jun. 2008.


Derrida, J. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Trad.: Cláudia de Moraes Rego. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001 [1995].


Klinger, D. Paixão de Arquivo. Matraga – Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da UERJ, Rio de Janeiro, v. 14, n. 21, p. 170–174, 2007.

EN

Abusing the Archive: after so many images

  

This exhibition presents a selection of works produced during a course I offered at Ativa Atelier Livre in 2024, under the same name: Abusing the Archive. In it, I proposed that participants work with the excess of their own photographic archives: those interrupted, yet latent, living in old photo albums in drawers, trunks, and chests, or in printed copies stored in folders and envelopes; and those ever-growing archives stored in computer hard drives, both internal and external, or scattered across digital communication networks that contain an endless stream of images. To this end, I wove a discussion interlaced with art theory and a multiplicity of works by artists who, since the 1960s, have used existing archives (appropriation); created their own archives (invention); formulated critical strategies for reflecting on archives (re-historicization); emulated new archival practices across different fields of artistic activity (execution and reflection); and destabilized hegemonic narratives (decolonization).


The linguistic trigger was the excess of images produced and kept with us—physically or digitally—never used, regardless of the reason. This abundance led me to the verb to abuse, creating, on one hand, a literal pleonasm, since both “archive” and “abuse” carry within themselves the mark of power, and on the other, an anaphora, as both terms define the abundant, the surplus, the emphasis. By adding the subtitle after so many images, I further highlighted the visual superabundance to which we are socially, economically, culturally, and politically bound by the use of an indefinite pronoun combined with a temporal marker conveyed by the adverb. In other words: so many images—any, all of them—indefinitely; after, since then, until now, without interruption. To abuse the archive is therefore a practice: an ongoing action of examining unused excess. A constant exercise of re-vision and counter-vision of images left aside, forgotten, or used only from a single discursive perspective (historical, technical, critical, or visual).


Abusing the archive, as an emphatic form, brings to light its origin and command from a Derridean perspective—that is, its physical, historical, and ontological principles (when things begin), as well as its nomological dimension (the exercise of authority). To find the beginning and to think about the legality of these private archives may be linked to the archive fever described by Derrida (1996), a passion for which we have no concept. To suffer from archive malaise is, indeed, to experience a fever of the archive. The idea of the archive, and the reverberations of its management, use, maintenance, and erasure, have long occupied artists, curators, and art critics. In 2004, Hal Foster noted the prevalence of an archival impulse in contemporary art production, proposing an analysis centred on works from the 1990s by Thomas Hirschhorn (CH), Sam Durant (USA), and Tacita Dean (UK). In 2008, Okwui Enwezor curated the exhibition Archive Fever: Uses of the Document in Contemporary Art at the International Center of Photography in New York, re-examining traditional historical narratives surrounding memory, trauma, identity, loss, and the document. In 2018, in Brazil, Giselle Beiguelman revisited Foster’s text through an artistic gesture of appropriation and paraphrase, calling it A Historiographic Impulse.

Birman, J. Archive and Archive Fever: a reading of Derrida on Freud. Natureza Humana, São Paulo, v. 10, n. 1, pp. 105–128, June 2008.


Derrida, J. Archive Fever: A Freudian Impression. Translated by Eric Prenowitz. Chicago & London: The University of Chicago Press, 1996 [1995].


Klinger, D. Archive Passion. Matraga – Journal of the Graduate Program in Letters at UERJ, Rio de Janeiro, v. 14, n. 21, pp. 170–174, 2007.

 © Fábio Gatti

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